Cinelândia, o Germinal de Paulo Rodrigues

Nem um poeta da envergadura de Pablo Neruda escapou da acusação de panfletagem socialista por seu grande poema de crítica social, “Canto General”. Quem assim o acusa, naturalmente, não deve entender a poesia intrínseca à utopia. Ainda mais, ignora o fato de que a poesia verdadeira é voz de fantasmas:para usar uma expressão de Walter Benjamin, trata-se de “convidar os mortos para o banquete” – trata-se de fazer soar a algazarra do silêncio.

O livro “Cinelândia”, de Paulo Rodrigues, participa dessa definição. Situando-se de partida em praça pública, num espaço de combate, uma arena histórica da luta de classes, o poeta percorre as veias abertas de um Brasil marginal, e enquanto do branco do papel ressoa o burburinho de algum comício, de alguma greve, na tinta preta do verso se erigem personagens ao mesmo tempo espectrais e inescapavelmente concretos, como a fome, o abandono, a pobreza, a velhice e a morte que tais personagens exprimem por padecer.

Longe de panfletagem, os poemas de Paulo Rodrigues são a genética de uma revolução a advir. Numa linguagem de palavras escassas, mas não sovinas, o poeta narra feridas. Os traumas insignificantes de cada dia. Dores, injustiças e frustrações que de tão presentes e repetitivas se tornaram invisíveis. E ao narrar a semente, o poeta a quer regar. A despeito do cânion estético que os separa, sob esta perspectiva, o trabalho de Paulo Rodrigues se aproxima de Zola, em Germinal.

“Cinelândia” é um livro de vanguarda – não no sentido das vanguardas estéticas do início do século XX, mas no sentido mesmo militar. É um livro de linha de frente, que faz a confrontação com o real, sem pisar na mina terrestre da tentativa de representação, sem o equívoco ordinário do dogmatismo político ou teórico. Escrita com sangue, com paixão, com sensibilidade, com requinte de elaboração – o poeta martela flores contra o metal, lança suas adagas de luz sobre os excluídos, e do ruído e do tumulto do “motor da história”, ele se esforça para nos fazer ouvir a alma cantar.