A arte é sobre o toque – e o toque é sobre o mar

A arte é sobbre o toque

É preciso aprender que arte é sobre a possibilidade de surfar no caos – o ilusionismo do artista não é de realismo, mas de integridade. Surfar no caos, sem a tentativa mesquinha de domá-lo, aliciá–lo. Os surrealistas foram longe na confrontação com o sonho – mas o caos não espera que os olhos se fechem. Ilusão de Freud – a barreira do superego, a fronteira da consciência, a clausura dos monstros. A vida é caótica porque é dispersão – pare um minuto em um lugar qualquer da cidade e escute: é tudo chaos. As frases cuspidas, chutadas, cortadas, estraçalhadas, chocam-se no ar fazendo vítimas fatais, no vácuo da indiferença dos insetos. Poeira e vapor. Um homem magro com a fome golpeia o concreto com um instrumento de metal, a lama escorre em pequenas valas, um pardal procura a sombra de um pnneu desgastado de borracha reciclada, um gato com sino no pescoço assiste a tudo majestoso em um telhado de brasilite.

Você pensa no sal, no sono, na planta baixa de um prédio, lembra de uma canção, mas não de sua letra, sorri de uma piada de semanas atrás, a política, o tomate, a saia curta da mulher na moto, as notas pendentes, o almoço, a sede, os olhos da vendedora, a garrafa de cerveja, o sapo, a ivermectina, espada de samurai, outra música, uma dor nas articulações, algo que se esqueceu de fazer, uma trepada ruim, o dia em que abandonou uma vela acesa e quase incendiou a cômoda, um livro de bolso… lembra de comprar uma camisinha, fantasia-se assassinando alguém, fantasia-se pedalando no cenário do filme que viu ontem… Satanás, Julia Roberts, o que é um lobo-guará? – Buzinas, gritos de crianças, e em algum lugar do mundo alguém tem uma mão decepada, perde um olho numa briga, sofre estupro, ganha dois milhões no Panamá…

Um amontoado de pedaços de coisas inclassificáveis, irredutíveis umas ás outras, das quais nos compomos, como um grande monstro de lixo em cujo casco nascem flores de papel e metal – somos comunidades de estilhaços de refugo que viaja na poeira: não ha encaixe, há emaranhamento que se mantém ou não pela força (fraca ou forte) do acaso ou do desejo. Lembro-me de ser um homem feito de cães. Sou habitado por cães que me cortam em sua corrida louca no meu coração-campina, coração de bairro pobre. São cães e cadelas viçando na voragem – latidos, grunhidos e uivos insanos que atravessam minha pele, que se grudam nas minhas pregas vocais, como gordura nos canos. O cheiro de sangue e urina atiça os apetites – cães enormes como ursos, cães pequenos como pulgas. Assombrações caninas perseguindo a lua delirante do meu olho cego. Lobos famintos das esquinas fazem arruaça em meus assombros – homem território – matilha, bando, manada: deixo-me povoar por uma multidão de feras marginais. Caninos blancos – os cães em frenesi escorrem pelo meu suor quando meu peito arfa, nadam na minha saliva quando beijo minha amante – meu líquido seminal, repleto de pequenos perros viscosos – treponema de petits chiens: minhas cadelas os engolem com fome-sede-tara… O sol desce a pedra de ladeira numa carroça sem rodas puxadas por doze pastores tosquiados.

A arte é sobre fogo e o fogo é sobre a dança. Só a desaprendizagem pode nos ensinar – e o que mais precisamos lembrar é a tecnologia de esquecer. Faíscas e tempestades me ofuscam entre as coxas de Azul – a arte é sobre o toque e o toque é sobre o mar.