SOBRE BARDOS, MAGOS E ROQUEIROS

VARIAÇÕES SOBRE O ESTILO


A primeira ferramenta de escrever foi uma lâmina, um estilete. Com ela, antigos sacerdotes sumérios fendiam signos em tábuas de argila. A escrita nasceu, portanto, como o trabalho artesanal de, com maestria e cuidado, ferir a terra com uma faca. Em Francês, essa memória está guardada no léxico: caneta, na língua de Lautréamont, é “stylo”, o mesmo radical que em Inglês dá “style”, e em Português, “estilo”.

Toda mística, toda a história da mística, nada mais é do que a história do estilo. Esta é a diferença entre magia e religião, arte e técnica, burocracia e sexo: mística, ou seja, estilo.

Em “Deuses Americanos”, a série roteirizada por Neil Gaiman, para reforjar a lança de Odin, o Rei dos Anões pede que ele lhe traga um objeto realmente poderoso, realmente impregnado de magia e fé. Mr. Wednesday e seu filho bastardo conseguem para ele a jaqueta de Lou Reed.

Lou Reed usou aquela jaqueta ao lado de David Bowie, Bob Dylan, Nico, Sid Barrett… Era ela que ele trajava quando foi fotografado em pleno transe na imagem que se tornaria a capa do seu lendário álbum, “Transformer”. Com aquela jaqueta, ele sobreviveu a incontáveis noites nova-iorquinas ao lado de Andy Warhol e seu séquito de desajustados.

Poucos objetos foram tão e tantas vezes tocados, cuspidos, arranhados, conspurcados, violados, atravessados, habitados, admirados, deformados — numa palavra, marcados, pelo estilo. Toda a aura, a alma imortal de uma geração interminável ainda rescindindo qualquer coisa de suor, saliva, sangue e outros fluidos, naquela jaqueta esfaqueada pela cintilância fulgurante de ídolos sonhados, desejados. Pois, foi com aquele manto de um bardo/mago pós-moderno que o antigo artesão de Asgard deu nova vida à arma fálica de um deus-rei.

Estilo é um tipo de poder que nem o dinheiro nem a violência podem conquistar. Estilo é tudo o que Bukowski falou que era. O estilo é a sabedoria de bruxa velha que já existe na bruxa virgem. O estilo iguala druidas, orixás e poetas (não nos esqueçamos que Merlim era também um trovador, um Jim Morrison do Stonehenge).

Gaiman entende de estilo. Casou-se com um imago do estilo — uma cantora pianista que se apresenta seios à mostra quando nem é dia de protesto. Gaiman sabe contar histórias tanto quanto envergar um sobretudo.

Nunca dê poder a alguém que não tenha estilo — e nunca confie demais em alguém com muito estilo. O estilo é a intensidade do pensamento do eterno retorno de Nietzsche — repete, sempre outro; retorna, mas nunca igual. Começo sem origem, destino sempre na ruptura.

Nunca dê seu coração a alguém capaz de amar uma pessoa sem estilo. Um homem pode ser um familial, mas só um homem com o espírito árido e desértico de um gato pode ser um elemental. Magia profunda, assim como poesia, ciência e amor, só acontece na indiferente e petulante presença do estilo.