O filho do General

Yaweh foi o Napoleão dos deuses antigos. Começou como um demônio agrícola do Monte Hebron. Em poucos séculos havia se tornado um poderoso Deus da Guerra – O Senhor dos Exércitos – reinando solitário e austero sobre montanhas e desertos. Transformou um povo de pastores fracos e pobres numa nação rica de guerreiros formidáveis e conquistadores, capazes de extraordinário feitos militares.

Josué derrubou uma cidade fortificada. Gideão enfrentou um excercito de milhares com apenas 300 bem antes de Leônidas de Esparta, e diferente deste, ele não perdeu um só soldado. Sansão, além de ter matado mil filisteus com uma queixada de jumento, e depois de ter caído por amor a uma mulher, matou todos os seus inimigos e vingou seus olhos vazados no primeiro atentado suicida já narrado.

Yaweh alcançou seu auge com Davi e Salomão. Então, algo mudou. Davi era salmista, mas sobretudo um guerreiro, enriqueceu o reino com conquistas. Salomão era filósofo, preferia fazer alianças por casamento. Com sua morte, o reino se esfacelou. Até Macabeus, nenhum grande guerreiro surgiu. Os judeus foram conquistados sucessivamente por Assírios, Babilônios, Persas, Macedônios e Romanos, para então serem espalhados por milênios em diáspora.

Nesse meio tempo, algo estranho aconteceu. O filho de Yaweh, Yeshua, apareceu como um pregador itinerante. Em vez de uma guerra, ele tinha uma mensagem. Em vez de adoradores, tinha discípulos. Em vez de um corpo forte e imponente, de uma postura orgulhosa e autoritária, ele era magro, feio e humilde e gastava seu tempo contando histórias para o povo.

Tenho certeza que na cabeça do Pai, aquilo era um absurdo. Yaweh era ambicioso, ciumento, extremamente orgulhoso. Inovador, conseguiu fazer funcionar a ideia meio idiota do deus egípcio Athon: o monoteísmo. Mas depois de tantas derrotas, tinha se incluindo entre e reduzido a apenas mais um entre as centenas de divindades greco-latinas. O Filho, em vez de derrubar templos e profanar altares para mostrar a superioridade do Pai, compunha parábolas.

O shogoun pariu um poeta.

A questão é que, de certo modo, Yeshua tinha razão. O monoteísmo de Yaweh foi apropriado por ele, foi remendado (agora comportava um Deus Trindade) e depois foi elastecido (para comportar uma rainha e um sem fim de santos), mas apesar de toda chatice pôde se tornar a religião mais bem sucedida da história. Não que a coisa do derramamento de sangue, do genocídio e da profanação dos lugares sagrados de outros deuses não tenha sido praticada por ele seus seguidores, agora chamados cristãos (foram, e muito) – parece que o poder subiu a grandeza do rapaz. Mas não foi assim que a coisa começou. Começou com uma situação inusitada.

Se é verdade que os deuses morrem quando já não há quem conte suas histórias, certamente há deuses que sobreviveram à morte de suas religiões. Os antigos deuses da Grécia e da Escandinávia, por exemplo, perderam seus crentes, mas passaram a ser cultuados como Literatura, sob o nome de Mitologia. Migraram para outras linguagens, e Thor hoje tem mais adoradores do que jamais teve em todos os nove mundos no tronco de Igdrasil.

Fico imaginando os velhos deuses sobreviventes conversando num piano bar sobre a tal situação inusitada que originou o cristianismo:

– Você tem que reconhecer que foi brilhante, Odin.

– Por favor, Apolo, é ridículo.

– Fizeram com vocês o que fizeram comigo – intervém Danah, a Deusa da Terra dos povos Celtas. – E eu também não me rebaixei a esse ponto por adoração.

– Pode ser humilhante, mas é funcional, eficaz, formalmente coerente – rebate Apolo.

Então, do canto mais afastado, de onde está solitariamente bebendo seu vinho novo numa mesa mal iluminada, de um rosto vazio coberto por um capuz cinzento, vem a voz trepidante como sarça que arde sem queimar, e como o trovejar de um mar a se abrir, do velho Elohim, o de muitos nomes, o pai de Yaweh, o Deus dos Judeus:

– Eu o reneguei ! Não o reconheço como filho. Não me importa que ele tenha conquistado o mundo. Profetas e deuses não são a mesma coisa, por isso gosto de Mohamed. Um Deus que sai para pregar a si mesmo não pode ser honrado como um Deus.