A lenda do Roncador

A lenda do Roncador

A cidade de Codó, estado do Maranhão, se formou à margem direita do Rio Itapecuru. Um importante afluente desse rio é o Riacho Roncador, que corre caudaloso por uma vasta extensão de terras, fazendo curvas e flertando com a estrada de ferro que, por um bom percurso, o ladeia. A certa altura deste riacho, pouco depois de sua nascente, há uma chácara de propriedade do meu avô e nela ele fez construir uma piscina natural – um cenário paradisíaco de águas avermelhadas cercadas por animais silvestres e palmeiras de buriti.

Num domingo qualquer, eu estava febril e meu avô sugeriu tomar um banho nas águas frias do balneário. “Estas águas são medicinais”, ele disse, e então me contou uma história extraordinária, a qual ouviu de outro avô, quando ainda era jovem, e este, por sua vez, ouvira de um avô ainda mais antigo.

Sabia-se que muito tempo atrás, antes de chegada dos colonizadores, quando até mesmo os índios Timbiras eram recém-chegados àquela região, houve uma moléstia terrível que acometeu uma tribo. Nenhuma erva podia trata-la, nenhum lambedor a curava, nenhum ritual a fazia sarar. Então o cacique procurou o pajé, à beira do desespero, e lhe perguntou o que podia fazer para salvar seu povo.

O pajé consultou os espíritos da floresta, invocou a sabedoria do Deus Tupã, e este respondeu ao cacique com um oráculo: “A terra engolirá teu sangue e dela brotará a cura”. “Devo morrer para o meu povo viver” – disse o cacique. “É meu destino e eu o aceito. Mas tenho que morrer lutando, porque esta é a honra do guerreiro”.

O cacique, então, reuniu 13 dos guerreiros mais fortes da tribo, aqueles que não tinham sido atingidos pela moléstia. Tacapes, lanças, arcos e flechas – o som do boré – eles atacaram uma tribo inimiga. Mas eram tão valentes que venceram, o cacique não morreu, eles trouxeram prisioneiros para o sacrifício, mulheres e crianças como espólio. Atacaram então outra tribo, mas foram tão valentes que venceram, o cacique não morreu, trouxeram guerreiros para o sacrifício, mulheres e crianças como espólio. Outra tribo inimiga, outra vitória, mais guerreiros para o sacrifício, mais mulheres e crianças como espólio.

O cacique estava aflito porque não havia guerreiro mais valente que ele que o pudesse vencer e matar. E enquanto ia de tribo em tribo, atacando inimigo após inimigo, tomando muitas mulheres como escravas, ele encontrou uma mulher tão bela que fazia as manhãs ensolaradas parecerem menos exuberantes – era uma índia com colar, uma tarde que não queria se por. O cacique se apaixonou por ela, tomou-a com seus olhos de fogo e no meio do mato fez amor com ela durante 13 dias e 13 noites, até adormecer.

A índia com colar concebeu e deu à luz uma menina que logo foi acometida pela moléstia. Ela chorava sem parar, até suas forças se esgotarem e não sobrar mais do que um pequeno ronco em seus pequenos lábios vermelhos. Pouco depois ela faleceu e foi enterrada na floresta, no lugar onde seus pais em paixão efervescente a conceberam. E no lugar em que ela foi enterrada surgiu uma nascente, que logo se tornou um riacho, e quando esse riacho corria entre as pedras ele roncava delicadamente. E quem bebia e banhava daquela água vermelha era livre de qualquer doença e tinha o corpo rejuvenescido.

“Quem me contou isso, jura que ouviu de alguém que viu tudo acontecer” – disse assim o meu avô, olhando para a mata preservada ao norte, como se sentisse saudade, e naquele momento era como se vários séculos estivessem condensados naquele olhar que não envelhecia.

21 de março de 2015

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