A menina da crisálida

A menina da crisálida

Naqueles tempos, o velho compositor ainda não tinha visto desbotar da barba de prata o efêmero banho dourado da juventude – e qualquer coisa de cobre lhe saia dos cabelos se se lhe olhasse a certa hora do dia, sob certo ângulo em relação ao sol.

Manhã ou tarde do quarto ou do terceiro dia, quando tateava a esmo, mesmo por ensaio, de tão certo que estava de um dia perder a visão, ele tocou com os dedos de fazer acordes uma meninazinha pequena e rechonchuda – tão pequena que vivia numa pequena crisálida – e por ela se apaixonou.

Sem ter lido jamais Ovídio e por haver vivido sempre nas folhas colapsadas de tristes jardins baldios, ela era inocente em assuntos de asas e metamorfoses. E ainda, se era mesmo menina, era mais pela ternura que irradiava dos olhos do que de fato por idade infantil. Embora jovem como uma manhã de agosto, ela era madura como… como uma manhã de agosto, oras! As manhãs de agosto cabem-lhe perfeitamente como comparação por tudo que têm de fresco e imemorial

Ela – a menina da crisálida – bem poderia ser feita de tapioca, e tinha uns cabelos de arrebol em tempo de queimada. De sua suave casquinha, ela sorriu para o velho compositor – que na época já não era jovem mas ainda era chamado apenas de compositor – e quando ele pensou que ela fosse se afastar ao seu toque de estagiário de cego, inesperadamente, ela o abraçou. Quem nunca foi abraçado por menina de tapioca que vivesse em crisálida e fosse pequena e rechonchuda não sabe o estupor de tempestade que isso causa em um compositor.

O céu sacana sacou o sacolejo. Todos pensavam que era chuva o que caiu naquela tarde, enquanto eles navegavam por caminhos fantaxmas nas fissuras da aldeia. Mas eles entenderam já pelo cheiro de espaço distante e ritual – era pó de lua, raspado pela sombra da terra em sucessivos eclipses totais. Tiraram a roupa um do outro lavados pela luz da lua em plena tarde de ano em termo e atravessaram-se como duas histórias paralelas que o destino quis enlaçar.

Anos depois, o velho compositor (que então era mais velho que compositor, tanto a ponto de todos se esquecerem que compunha e o nome velho, sozinho, lhe bastar) ainda se lembraria do dia dourado e quente em que a menina da crisálida lhe deu o coração em segredo e celulose num pingente de açúcar. Uma garrafinha no oceano, uma carta de náufrago – as ondas do tempo carregaram-no por tantas latitudes de solidão, silêncio e orações subordinadas, e ele sempre trouxe consigo as relíquias do seu amor alado, e perdido.

Foi numa noite, no meio do Apocalipse. Eles não fizeram amor na cidade em ruinas, como seria justo e conveniente – quem sabe se o mundo não renasceria de seus suores primitivos em clamor libidinal? Naquela noite, antes de dormir ela encerrou o casulo e pela manhã – uma casca rescendendo ao perfume das estações, de onde saiam também os ecos de canções forjadas na musculatura do sonho. Como o vislumbre do pensamento que um dia assombra o louco e em cujo encalço se escreve toda uma filosofia, ela passou sobre a cabeça do compositor, como que com uma envergadura de dragão, uma linda e infinitamente delicada borboleta colorida – enfim, começava a voar.

Ele não chorou, mas também nunca pôde se reconciliar com o próprio sorriso. Amargo-doce foi seu coração pelos 1.308 anos que viveu desde então. Andou entre bardos cibernéticos e trovadores provençais, escreveu em pergaminhos palimpsestos de couro e em dispositivos digitais, foi e voltou no tecido do tempo a se reencontrar com sábios mortos, gentes não nascidas e até os filhos que não teve, cruzou com eles como sombras, quando ele mesmo não se diferenciava de sombra na penumbra da saudade.

E a menina da crisálida – ele carregou consigo a impressão de que em suas asas psicodélicas havia ficado algumas listras cor de cobre indeciso, cor de prata folheada, qualquer coisa de alegre-triste que fazia eco ao doce amargor do seu próprio coração, mas nunca pôde confirmar. Ela voou como fazem as borboletas, sentindo o gosto da vida com os pés e tendo a existência mais plena que qualquer outro ser do universo só é capaz de invejar. Dos padrões fractais de suas asas se formaram memórias órfãs que acalentam sonhadores tristes, sem que eles saibam de onde vêm. E, muito tempo depois, quando chegou a hora de deitar, ela apontou as antenas para o alto, e ainda trazendo na carne (mesmo metamorfoseada) resquícios de pó de lua, voou em paralelas cruzadas até se fazer estrela, e o compositor morreu sem testemunhar, treze eternidades além, a explosão dela em quasar.

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