Como a Academia Caxiense de Letras me ganhou para Caxias

Como a Academia Caxiense de Letras me ganhou para Caxias

Vinte de fevereiro de 2004: eu chegava em Caxias aos 20 anos, para estudar História na Universidade Estadual. Ficaria hospedado num hotelzinho com nome de poeta (que hoje nem existe mais). Meu avô, Jacinto Pereira, para me ensinar o caminho, me acompanhou em minha primeira subida do Morro do Alecrim – foi a última vez que ele me guiou fisicamente a algum lugar: deixou-me dentro de uma universidade.

O hotel ficava na Rua Afonso Pena e se chamava Gonçalves Dias. Era uma casa antiga com arquitetura de novela de época. Dezenas de quartos que estavam lá desde sempre, organizados em um conjunto quadrado de corredores, em cujo centro ficava uma ampla área que em outros tempos bem poderia ter abrigado animados saraus. Uma caixa d’água de acrílico meio decrépita fazia as vezes de cisterna e dava aspecto de pracinha fantasma ao pátio quando não havia roupas nos varais.

No caminho para a Universidade, passamos pela Praça Gonçalves Dias, pelo antigo fórum, e subimos pela Travessa Antônio Joaquim. Não sabíamos, mas a via levava o nome do mesmo Antônio Joaquim, médico e político codoense que frequentava a casa do meu avô, a casa onde eu cresci, anos antes de eu me entender, quando seu Jacinto Pereira ainda era homem de política. Mas mesmo com seu afastamento dos palanques, eles seguiram amigos até a morte do doutor.

Chamava-me a atenção o ar diacrônico da cidade. O prédio do antigo fórum, os sobrados decadentes do Centro, as ruazinhas estreitas, de traçado ora elegante, ora esdrúxulo, com as quais o asfalto não combinava e de cujas fachadas vinha sempre um inexplicável aspecto de coisa que falta. Quebramos a esquina da então Rua Primeiro de Agosto e olhando para cima eu li o letreiro verde em fontes sóbrias:

ACADEMIA CAXIENSE DE LETRAS
CASA DE COELHO NETO
Fundada em 15 de agosto de 1997

Um pouco mais acima um guardião de mármore (ou cerâmica) velando a cidade (muitos anos depois eu descobriria lendo fragmentos de um sábio de Alexandria que essas estátuas vigilantes nos tetos das casas antigas, assim como as gárgulas e estriges de Notre Dame, são na verdade raríssimos olhos de escritor).

Era impossível prever que aquela casa diante da qual eu passava com não mais do que um deslumbramento curioso de flâneur iria marcar a minha história e, sob muitos aspectos, até mesmo guiá-la e dar sentido. Em menos de um ano eu me tornei vizinho da Academia Caxiense de Letras. Fui morar na Pensão da Dona Rita, apenas alguns metros rua acima. Passei a frequentar a biblioteca, que me oferecia o silêncio, o conforto e o acervo que de jeito nenhum eu teria em uma pensão.

E assim me tornei conhecido dos donos da casa. De conhecido, tornei-me conviva e de conviva me tornei parceiro. Venci o Primeiro Festival Caxiense de Poesia, promovido pela casa, participei do disco “10 Poemas, 10 Canções”, aprendi tudo que havia para saber sobre a instituição, sua sede e muitos de seus membros, tornei-me cicerone. Eventos, invenções, movimentos, festas, cerimônias. Apoiei a Academia em seus projetos e fui apoiado por ela nos meus – como quando pude usar o espaço como estúdio, no início da Banda CasinoQuebec, ou quando ela foi a sede informal da Causthica Revista Cultural. Entre 2011 e 2020 participei – como autor, organizador, pesquisador e/ou revisor – de 04 livros do selo da Academia Caxiense de Letras – que, aliás, foi registrado por insistência minha, quando da edição do “Cartografias Invisíveis”.

Nesses últimos 15 anos, seja como equipamento urbano, como instituição ou como irmandade, a Academia Caxiense de Letras foi um dispositivo em torno do qual me movi. Graças a ela ganhei amizades inestimáveis e tive experiências intelectuais e culturais que me levariam outros 15 anos para narrar. E o que fez com que tudo isso fosse tão significativo para mim foi o fato de que o tempo todo, tudo que a Academia fez ou tornou possível ser feito, foi sempre de alcance e para o benefício da cidade. Estivemos sempre tocando vidas, tocando almas, produzindo saber, viabilizando experiências, reunindo mentes, aproximando corações, produzindo cultura, salvaguardando informação, praticando respeito e irradiando alegria – ora, como disse Espinosa, o conhecimento é o mais alegre dos afetos.

Cheguei aqui menino para ganhar um diploma e partir, mas estou aqui até hoje – bebi do manancial do Ponte como quem bebe água de calcinha. Fui capturado pela cidade e estou enredado nela de corpo, alma, memória e projeto. Mas não tenho a menor dúvida de que foi a Academia Caxiense de Letras, com seus livros e saraus, seus loucos de variadas ilusões, seus projetos mirabolantes e sua força de sonhar que me ganhou para Caxias.


Caxias, 15 de agosto de 2021. Pelos 24 anos da ACL

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