Autor: Isaac

Isaac Gonçalves Souza é poeta, músico e escritor. Nasceu em 1984, em Goiânia, Goiás (Brasil). De família maranhense, cresceu em Codó - Ma, e radicou-se em Caxias - Ma, em 2004. É graduado em História, Mestre em História do Brasil. Autor de nove livros. Líder da Banda CasinoQuebec, lançou dois álbuns e alguns singles.

Booh! – O Tiju-zine

Ou um zine-fantaxma para um fantaxma que se foi Carvalho Junior – poeta. Eu o conheci em um sarau na praça da Universidade Estadual do Maranhão, em 2006 ou 2007. Ele tinha publicado seu primeiro livrinho – experiência que ele posteriormente renegou – e recitava seus poemas com entusiasmo e autoridade. Ele era um ano mais jovem que eu, porém, infinitamente mais maduro. Na mesma época, eu dirigia uma revista eletrônica de crítica cultural – me aventurando como ensaísta e cometendo muitos erros, com a minha linguagem de garra de gato arisco e meus pontos de vista então inflexíveis. Mas também me colocava na cena artística como poeta, ator e músico. Os anos nos aproximaram. Eu e Carvalho Junior – […]

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A lenda do Roncador

A cidade de Codó, estado do Maranhão, se formou à margem direita do Rio Itapecuru. Um importante afluente desse rio é o Riacho Roncador, que corre caudaloso por uma vasta extensão de terras, fazendo curvas e flertando com a estrada de ferro que, por um bom percurso, o ladeia. A certa altura deste riacho, pouco depois de sua nascente, há uma chácara de propriedade do meu avô e nela ele fez construir uma piscina natural – um cenário paradisíaco de águas avermelhadas cercadas por animais silvestres e palmeiras de buriti. Num domingo qualquer, eu estava febril e meu avô sugeriu tomar um banho nas águas frias do balneário. “Estas águas são medicinais”, ele disse, e então me contou uma história […]

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Inscrição

Eu sou uma palavra, sou um signo, sou um código. Fui escrito pela minha história, pela história dos meus país, dos meus avós e dos meus irmãos. Sou uma artimanha da minha própria malandragem – produto precoce da fuga e da transgressão. Sou o ímpeto do desejo, a indiscrição da vontade,eu sou o vício, a virtude e a rejeição da régua. Sou um espaço que se pronuncia e canta: estou aqui, ali e onde não posso sequer estar. Não sei das coisas, apenas aprendo sobre como me mover no meio delas – eu me aprendo e depois me ignoro. Amanheço sonolências e vou para a cama de madrugada insone – um pesadelo me observa da janela. Tenho acessos de poesia […]

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Os ciclos em “Uma canção de amor para Bobby Long”

Escrita como punição, escrita como redenção A escrita de Lawson Pine, em Uma canção de amor para Bobby Long (2004) toma a forma de uma danação grega – o condenado é fadado a destruir ao amanhecer o trabalho que realizou na madrugada, apenas para reiniciar seu ciclo infernal. O próprio filme enuncia em um diálogo a impossibilidade de conclusão da obra como “sua redenção, minha punição”. Mas a perspectiva do tempo das personagens como ciclo interminável do absurdo também se revela por meio de Purslane, quando debocha do fato de alguém pretender escrever a história de Bobby Long: “eu acordei, me embebedei, dormi, acordei, me embebedei” etc. Nesta formulação, entretanto, o ciclo não é de danação, mas é o ciclo […]

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A coragem da verdade em Michel Foucault (anotações)

Foucault recupera dos gregos antigos o conceito de “coragem da verdade”: Parresia. Uma vez que o Foucault analista social detecta a dimensão discursiva da constituição da realidade – ou seja, uma vez que se detecta que o que se diz do real é mais importante do que o próprio real – o ser humano pode se ver num vazio niilista, e este definitivamente não é o lugar que o Foucault filósofo quer estar ou quer que estejamos. A coragem da verdade é o colocar-se do sujeito dentro de seu discurso, assumindo seus riscos, consequências e tornando a própria experiência uma dimensão de construção do saber. Eu falo o que eu vivo e vivo o que eu falo.A coragem da verdade […]

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UMA CANÇÃO DE AMOR E UMA DANÇA DA MORTE

(contem spoilers) Este ensaio foi publicado originalmente em meu perfil do Facebook “Uma canção de amor para Bobby Long” é um dos meus filmes preferidos, e eu eventualmente escrevo coisas sobre ele desde a primeira vez que o assisti, ainda no ano de 2008. Em algum lugar no limbo deste meu feed ou numa publicação fantaxmagórica de um dos meus blogs deve ser possível encontrar textos em que falo sobre a magnífica trilha sonora folk, liderada por Grayson Capps, que fez para mim a ponte de volta às sonoridades da minha infância (das quais eu havia me distanciado quando o estudo da guitarra me bitolou nos dogmas do Heavy Metal). Ou, quem sabe, antes disso, você encontre algum comentário meu […]

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De um recorte de jornal: Renato Meneses, poeta em estilhaço

Caxias – Ma, Julho de 1985. Renato Lourenço de Meneses, então com 25 anos e uma vasta cabeleira Black Power, aparece numa edição do jornal “O Pioneiro” – dirigido, editado e diagramado, varrido, desinfetado e novamente sujo, vendido, distribuído e muitas vezes descartado por seu próprio fundador, Vítor Gonçalves Neto (segundo o próprio). A foto 3/4 do jovem Renato Meneses ladeia o título, “Nordeste”, de um poema 4/3 – quatro estrofes de três versos – em que o jovem esculpe a cutiladas de facão a paisagem humana que vivencia. O estilo econômico cuja marca é a frase oracular – seca, direta, enigmática, de imagens ordinárias em ângulos peculiares – que Renato já cultivava quando o conheci 20 anos depois já […]

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A respeito de Sandman, a série de TV

Neil Gaiman é para mim um filósofo. A narração de Gaiman mobiliza um vastíssimo acervo cultural, e em Sandman isso pode ser levado às últimas consequências. Uma vez que Lorde Morpheus é o Senhor do Sonhar e é no Sonhar que nascem todas as artes e todo conhecimento, ele pode a todo momento mobilizar referências múltiplas e fazer o pensamento estalar. A linguagem das graphic novels atingiu níveis de elaboração estética elevadíssimos a partir de Will Eisner, permitindo inclusive o aparecimento de outros gênios inegáveis, como Allan Moore. Watchmen, por exemplo, é até hoje a única história em quadrinhos a receber reconhecimento de obra literária. Mas a história que eu mais me deliciei ao ler foi, sem dúvida, a de […]

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Ensaio sobre a PQP

Graciliano Ramos escrevia PQP no Jornal do Brasil. Vitor Gonçalves Neto, escritor teresinense-caxiense, que dizia preferir fazer jornalismo à mão, igual punheta, na mesma época de Graciliano, já escrevia os palavrões à cheia, em sua linguagem jocosa, coloquial, ágil e elegante. Eu me identifico com essa estética que assume as palavras em sua inteireza e evita aspas e outros subterfúgios para suavizar o escândalo – desde antes dos 20. produzindo minhas primeiras tentativas de trabalho acadêmico e escrita literária, decidi não me intimidar diante de nenhuma palavra e, sobretudo, não intimidar nenhuma delas. Mas entendamos: xingar é fácil. Olavo de Carvalho escreve as palavras cu e rola mais vezes do que elas aparecem nas histórias amadoras e pseudo-autobiográficas do Casa […]

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O fluxo da letra

Músico de competência duvidosa e cronista nonsense de Facebook, eu também sou poeta de folhas soltas, versos avulsos e imagens repetidas. De todas as 9.432 habilidades inúteis e não muito bem desenvolvidas que tenho, a versartesania é aquela em que sou mais imberbe. Apesar disso – ou talvez justamente por – faço do meu verbo um espinho na carne do mundo. Sou um menestrel da Provença que errou o século de estreia – escrevo-canto/canto-escrevo para enaltecer mulheres, corromper a juventude e desafiar heráldicas. Não sou guloso, beberrão ou mentiroso, mas tenho um fraco pela luxúria e pela preguiça e aprendi a converter a ira em ácido. Nascida sob uma estrela terrestre, um sol e uma lua de fogo, minha fala […]

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Seminuas – Baladas seminais

O poeta, a guitarra e a canção contra o mundo – é com este conceito que estreio a série Seminuas – Baladas seminais, em meu canal no YouTube. Com meu canto torto feito faca, eu venho pra cortar o desassossego do país. Poesia em grito e corda de aço – cantar o amor e a má dicção, filosofar em desarmonias maquinais. Eco de uma sala, a amplificação elétrica de um peito, de uma praga. Meu pobre violão reverberando tríades triviais, e os versos felinos das minhas baladas de bardo cansado na boca peluda, na incontinente tendência de seduzir e abandonar. Pra começar… Escolhi esta balada feita de um fôlego só em uma noite de isolamento, enquanto dava trégua para a […]

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Conspiração Fantaxma

O programa Conspiração Fantaxma está sendo gestado com todo carinho e tesão por mim e pelo poeta Renato Meneses. Quando um alarme de incêndio toca, vocẽ não fica imóvel esperando que o fogo se apague por falta de combustível – isso se você não for um imbecil cínico e inconsequente. Um alarme de incêndio toca em nossa sociedade, a fumaça nos sufoca e o calor das chamas já nos queima a pele e começa a expor a nossa carne. Susan Sontag chama a atenção para o fato de que em cada época a Humanidade precisa desenvolver um novo espírito – uma nova perspectiva de espiritualidade. Sem nenhum laivo de religiosidade: o espírito são esquemas mentais que permitem ao ser humano […]

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Canal do Isaac no YouTube

Está em construção o Canal do Isaac, no YouTube. Trata-se de mais um laboratório de experiências estéticas, fantaxmagóricas, micropolíticas, filosóficas… O Canal do Isaac vai trazer música, poesia, diálogos, e sobretudo vai ser um dispositivo para promover conexões. Laboratório de Fantaxmagorias Uma plataforma audiovisual para expressão de pensamento e arte – para encontros e montagens, para usinagem de artimanhas. A propósito, já estou em plena produção, com o parceiro Renato Meneses… CONSPIRAÇÃO FANTAXMA Conspiração Fantaxma é uma iniciativa que visa abrir diálogos fora do lugar comum, passear por pontos de vista da diferença. Para isso, eu e o Renato vamos receber sempre algum convidado para maquinar esquisitices e proliferar heresias, assombrar a calmaria dos casarões solenes.

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A inocente crueldade do sol

Sempre fui daqueles que escrevem com fogo, ignorando o risco da queimadura. Não considero palavras morais nem imorais, sagradas ou profanas, corretas ou erradas – palavras são palavras, ou seja, puras arbitrariedades. Meu papel é montá-las – no sentido de juntar peças, mas também no sentido de cavalgar (com todas as conotações sexuais que essa imagem suscita. Espremer palavras; exprimir qualquer coisa de inevitável que exista entre as superfícies interior e exterior da minha pele. Sufocar palavras, emprenhar palavras, destruir palavras e inventar palavras – e com elas trucidar o mundo tal como ele é para fazer nascer o absurdo: “será arte”? Há mais de dez anos, quando fiz a minha primeira experiência editorial, me perguntei como poderia definir uma […]

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