Booh! – O Tiju-zine

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Ou um zine-fantaxma para um fantaxma que se foi

Carvalho Junior – poeta. Eu o conheci em um sarau na praça da Universidade Estadual do Maranhão, em 2006 ou 2007. Ele tinha publicado seu primeiro livrinho – experiência que ele posteriormente renegou – e recitava seus poemas com entusiasmo e autoridade. Ele era um ano mais jovem que eu, porém, infinitamente mais maduro.

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Na mesma época, eu dirigia uma revista eletrônica de crítica cultural – me aventurando como ensaísta e cometendo muitos erros, com a minha linguagem de garra de gato arisco e meus pontos de vista então inflexíveis. Mas também me colocava na cena artística como poeta, ator e músico.

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Os anos nos aproximaram. Eu e Carvalho Junior – ou Junior, como eu (era um dos poucos que) o chamava – nos tornamos parceiros de muitas aventuras e projetos. Compartilhávamos um tipo de necessidade de ação, uma urgência de fazer acontecer – não queríamos sair em busca de um cenário favorável, queríamos construir esse cenário em nossa cidade.

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Mais disciplinado, mais responsável, mais carismático e muito mais comprometido com seu talento do que eu, ele conseguiu muito mais realizações. E não era o carisma da liderança que ele tinha, era o carisma do afeto, de fazer apego – foi capaz de congregar, incentivar, promover.

Carvalho Junior foi uma das vítimas do assassinato coletivo que se passa no Brasil. Vítima da epidemia de Covid-19 fomentada pelo governo federal e agora completamente fora de controle não se sabe até quando. Morreu terça-feira, 30 de março de 2021.

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Mas um homem, um artista como aquele, não tinha apenas futuro – o futuro é uma de nossas mais pobres ficções. Carvalho Junior tinha potência e seu corpo-palavra disparava cintilantes devires. E esses devires não se apagam com a interrupção de sua existência física. Carvalho Junior era a habitação de um corpo-potência que se abria, por exemplo, para o poderoso devir-animal do homem-tijubina, para os devires-fantaxmas de seus expantos.

O que eu trago aqui é um dispositivo – um estilhaço ainda capaz de explodir advindo da máquina-carvalho-de-guerra cujo dinamo, dinamite – ameaça constantemente explodir em nós. O trabalho é uma parceria minha e do também poeta Edwar Castelo Branco.

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