Inscrição

Inscrição

Eu sou uma palavra, sou um signo, sou um código.

Fui escrito pela minha história, pela história dos meus país, dos meus avós e dos meus irmãos.

Sou uma artimanha da minha própria malandragem – produto precoce da fuga e da transgressão.

Sou o ímpeto do desejo, a indiscrição da vontade,
eu sou o vício, a virtude e a rejeição da régua.

Sou um espaço que se pronuncia e canta: estou aqui, ali e onde não posso sequer estar.

Não sei das coisas, apenas aprendo sobre como me mover no meio delas – eu me aprendo e depois me ignoro.

Amanheço sonolências e vou para a cama de madrugada insone – um pesadelo me observa da janela.

Tenho acessos de poesia e raiva – tenho dias, ausência de horas e perco meses na modorra e procrastinação.

Os dias passam sobre mim como lâmpadas, revoadas de corvos, chuvas de sabão e tapetes persas. Lampião, espelho, parâmetros de encadernação: uma luta, um gemido que desafia os espíritos nefandos.

Não tenho medo do diabo nem dos cães, mas me sinto enjoado na presença dos liberais, sinto náuseas quando leio os conservadores – faço do meu canto meu programa de revolução.

Nuvens e felinos conversam com a minha sensibilidade: espero manhãs e as manhãs me esperam; entendo coisas sobre o sexo que minha mente não consegue formular.

Tenho a noite como um território e ele está repleto de serpentes; há ratos na ágora: eles também sabem roer as roupas da democracia.

Ando pelas ruas e elas andam por mim. Não tenho espelhos, tenho lentes, pentes e escovas. Sou amado por mulheres extraordinárias, mas não consigo fazê-las se amarem mutuamente.

Tenho medos, mas minha atenção é difusa — no labirinto da imaginação, escapo dos monstros como sombra e asas de cera – asa branca, asa morena, little wing – todos os fios me conduzem para a tempestade e o abismo.

Ejacular é como declamar um poema, beber o gozo da mulher vezes & vezes & vezes – espero pela espera e depois me esqueço de parar.
Walt Witman nasceu em Cuba. Edgar Allan Poe cresceu nas praças da Vermelha. Ernest Heminghway fez safari no Inhamun. E se o Fábio é Kerouak, o Renato é Ginsberg – embora conste que ele prefira burras a jumentos, mas é anticlerical desde as primeirss punhetas.

Eu, pelo que sei, é só uma palavra sobre a qual conto uma história: eu tenho a dicção do vento e o que me falta em voz sobra-me em coragem de falar.

Minhas palavras são para o estômago não para o ouvido, quero derramar meu verbo na boca das ninfeias, Ofélia salta como um anjo e depois aprende a nadar.

Eu sou só eu só: carne & osso e o sangue das palavras que inscrevi neste poema.

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