Os ciclos em “Uma canção de amor para Bobby Long”

Os ciclos em “Uma canção de amor para Bobby Long”

Escrita como punição, escrita como redenção

A escrita de Lawson Pine, em Uma canção de amor para Bobby Long (2004) toma a forma de uma danação grega – o condenado é fadado a destruir ao amanhecer o trabalho que realizou na madrugada, apenas para reiniciar seu ciclo infernal. O próprio filme enuncia em um diálogo a impossibilidade de conclusão da obra como “sua redenção, minha punição”.

Mas a perspectiva do tempo das personagens como ciclo interminável do absurdo também se revela por meio de Purslane, quando debocha do fato de alguém pretender escrever a história de Bobby Long: “eu acordei, me embebedei, dormi, acordei, me embebedei” etc. Nesta formulação, entretanto, o ciclo não é de danação, mas é o ciclo do vazio da existência: “o que foi é o que há de vir, nada há novo debaixo do sol, tudo é canseira e enfado”.

No decorrer da história, porém, ocorre uma purificação do giro da roda do tempo e o eterno retorno do mesmo – cansativo, enfadonho e sem sentido, conforme a visão do Eclesiastes – é substituída pelo eterno retorno do outro, eterno retorno da diferença – não a novidade, mas o novo.

A voz de Lawson que às vezes interfere no fluxo da narrativa – se não estruturando-a, pelo menos assinalando marcos em suas linhas – é sempre uma fala das estações, da passagem das estações e seus humores. Pode-se ver aí um simples recurso roteirístico para representar a passagem do tempo-calendário, mas é uma leitura demasiadamente reducionista. Essa invocação das estações é também uma convocação para que o próprio universo tome seu lugar na cena.

Além disso, esse inscrever do ciclo infinito das estações cortando a existência finita das personagens é também – ao lado de “The heart is a lonely hunter” – a mais persistente referência literária entre as muitas que fermentam nos belos diálogos: Ovídio, Metamorfoses – uma celebração do alegre caminhar na estrada para a morte, sem ser negação da vida, pois é a própria vida. Agora o ciclo deixa de ser um signo da mesmice e do enfado para se tornar signo de criação-destruição-criação – signo de renovação, renascimento, fertilidade, poesia.

Parêntese: impossibilitada pela estética naturalista do filme de representar o inverno pela imagem cristalizada da precipitação da neve (pois o filme se passa no Sul), Shainee Gabel faz a branca imagem invernal emergir da chuva, pela boca dos três personagens principais:

– Eu queria que estivesse nevando.

– Eu também

– Eu também

Fecha o parêntese.

Isso torna especialmente significativo que a “dança da morte” – citação de um plano clássico de Bergman, em O sétimo selo (1957) – se situe, em Uma Canção de Amor Para Bob Long, sob as luzes douradas da primavera. Encontro da morte com o renascimento, com a redenção.

Alegria inscrita na emergência do inevitável – amor e morte numa dança primal – o ciclo como signo de redenção, reencontro da morte com o nascimento. Essa leitura é autorizada e lindamente fixada no discurso final de Bobby Long, quando cita T. S. Eliot e sua definição da vida como uma viagem de exploração que conduz inevitavelmente ao mesmo lugar do começo, para que ele seja conhecido de novo pela primeira vez.

Só então a escrita de Lawson deixa de ser o fado/fardo de um condenado para se tornar o cântico de um amigo (logo, filosofia, filografia) – escrita liberta, que conversa com a paisagem, peripatética, capaz de “caminhar junto”, e para quem a tragédia já não é fim, pois é parte do ciclo, e os ciclos não têm começo nem fim, os ciclos são todos meios.

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