Música Independente, Arte e Mercado

Quando a indústria percebeu que ganharia muito mais se tivesse um exército de artistas medianos fazendo o trabalho mecânico de realizar uma fórmula era muito mais lucrativo do que ter um Fred Mercury, com todas as suas idiossincrasias e instabilidades – nesse momento, a indústria percebeu que o artista autêntico era uma perda de tempo e money.

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Arte é trabalho

Arte é trabalho – não é trabalho a determinação de um ser humano a inventar alegrias para os outros? Não é trabalho o trabalho de decodificar os sonhos e decompor o real? Não é trabalho o cuidado de traduzir o inefável, de acender estrelas, de fazer a toalete de deus?

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NÓS PRECISAMOS DE POESIA

Por que tenho a poesia, sou uma vagalume do rock. Sou um cão sarnento na sarjeta da indústria – um bardo antiquado vagando como fantasma e fóssil no mundo digital. Faço das minhas invenções nonsenses e quase sempre infrutíferas – aquela figueira maldita que Jesus Cristo fez secar é minha irmã mais velha, minha primeira ancestral conhecida, minha antecessora no caminho do céu.

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OFICINA DO DIABO

Sou tentado a acreditar que o artista é o seu atelier. Não me refiro a uma sala, um prédio, um depósito ou um galpão necessariamente – não o ateliê como endereço. Mas para que alguém que poderia, com alguma sorte, ser uma pessoa normal se torne um demônio hiperativo constantemente atarefado na labuta de inventar, é necessário que um espaço seja constituído: um espaço de experiência, um laboratório, um estúdio, uma oficina. É um espaço virtual que começa na mente do artista, passa pelas extremidades do seu corpo e se estende no tecido espaço-tempo que o cerca, conectando-se a ferramentas, códigos e referências que o acompanham e das quais ele se vale. De modo que a oficina de cada artista […]

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SOU UM PÉSSIMO LEITOR DE POESIA

Sejamos francos, sou um péssimo leitor de poesia. Sempre fui um péssimo leitor de poesia, e pretendo continuar a sê-lo até o último dos meus dias tão insólitos. E isso não é culpa da poesia, mas dos poetas. Da performance mecânica e fingida dos poetas contemporâneos: mímicos, pantomimeiros de mistérios inexistentes. Abro um livro de poesia: já me sinto diante de uma farsa. Repudio poetas tanto quanto repudio os crentes (posso ter exagerado na comparação). Não obstante, eu penso que a poesia é o caminho para a salvação dos nossos corpos corrompidos por esta época medíocre. Sim, a poesia é tudo o que restou da nossa mais antiga e pura experiência espiritual – algo primitivo e verdadeiro, fruto de uma […]

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Boneca de Buriti

Ninfa do brejo dourado,Boneca de buriti;Amor, utopia, pecado– beleza de um mundo por vir. Dá-nos teu peito e teu canto,Profana donzela. Anjo rebelde vestidoCom as cores do arco do céu,Por sol e poeira polido,Montado em fogoso corcel Dá-nos teu peito e teu canto,Selvagem gazela. Corpo que é terra molhada,Carta de navegação,Pedra de sangue entalhada– território em mutação. Dá-nos teu peito e teu canto,doce caravela Gotas de orvalho que escorrem,Contas azuis de cristal;Em tuas coxas se vive e se morre,Ninféia do Bem e do Mal. Dá-nos teu peito e teu canto,líquida estrela. Alma que escorre, enxurrada,tempestade de verão,– foice, martelo e espada– poema, gemido e oração. Dá-nos teu peito e teu canto,Flor das Tresidelas. Dá-nos o leite da língua,o olhar do […]

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Slow Jam

Brinca comigo,deixa eu escoar (ecoar!)nos teus delírios. Aqui dentro o mundo chora;dentro em mim um mundo em chamas. Mas em ti eu me equilibroe digo: grita! e digo: canta!fala frases longas e truncadas…porque a alma nasce do some na poesia faz fragrância. Harpas e harpias habitamcavernas abissais em nós.

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Noite em Mim

A noite está presente em mim, faz parte de mim – é como a minha alma se vê. Sento-me a um canto escuro e respiro a umidade, deixo a poeira molhada de orvalho invadir minhas narinas, obstruir minha respiração. Busco a brisa, busco as aves de rapina – esforço-me para sentir o medo dos roedores que andam furtivos na penumbra, eles soltam guinchos, arrastam a barriga gorda pelo chão. Tento ver o rosto dos fantaxmas que se escondem nas paredes, nos lugares vazios, nos corredores desocupados. Em algum istmo noturno entre a consciência e o momento de sonhar pode-se ouvir a voz de gente morta, ecos do passado ainda ressonantes nas entranhas do ser-do-mundo. A noite é como uma serpente […]

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Arte X Cultura – palavra-cilada e a máquina de guerra

Então, a arte é uma contracultura – essa sensibilidade estética a que se refere Guattari – é o que entendo ser a arte. Máquina de guerra, a arte rompe o pacto da normalidade, o pacto da mediocridade: ela viola os acordos territoriais das identidades fixas e eclode como força do caos em meio ao cosmo. Transgressão que se recusa a tornar-se lei –  Precisamos reavaliar periodicamente a utilidade das palavras. Nesse texto eu gostaria de fazer anotações mais ou menos genéricas sobre a palavra cultura, a partir de alguns fragmentos de Guattari. No final, espero ter esclarecido por que penso que a arte deve atuar contra a cultura e não como parte dela. Um conceito reacionário Em 1982, Felix Guattari […]

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