Tag: arte

A arte é sobre o toque – e o toque é sobre o mar

É preciso aprender que arte é sobre a possibilidade de surfar no caos – o ilusionismo do artista não é de realismo, mas de integridade. Surfar no caos, sem a tentativa mesquinha de domá-lo, aliciá–lo. Os surrealistas foram longe na confrontação com o sonho – mas o caos não espera que os olhos se fechem. Ilusão de Freud – a barreira do superego, a fronteira da consciência, a clausura dos monstros. A vida é caótica porque é dispersão – pare um minuto em um lugar qualquer da cidade e escute: é tudo chaos. As frases cuspidas, chutadas, cortadas, estraçalhadas, chocam-se no ar fazendo vítimas fatais, no vácuo da indiferença dos insetos. Poeira e vapor. Um homem magro com a fome […]

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Pá! Pô Papo de Poeta – um bando de poesia

Surgido como uma resposta a pressões conservadoras contra a livre expressão e circulação da poesia na cidade – o Pá! Pô! Papo de Poeta avança na construção de uma cena de efervescência poética. Um bando. Uma multiplicidade. As primeiras zoações de um enxame. Feromônio de acontecimento disseminado por ruas, praças e calçadas – acusticografia: a poesia proclamada como falsa profecia que reverbera no concreto. A seguir, um pequeno inventário de maquinações: Pá! Pô! Papo de Poeta – Podcast no YouTube Com apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Maranhão, estreia em 08/03 o podcast Pá! Pô! Papo de Poeta no YouTube O programa será apresentado pelos bichos papões Isaac e Renato Meneses, sempre entrevistando um convidado qualificado […]

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A perspectiva do espelho – um experimento musical e poético

Isaac – corpo e linguagem como manifesto Comunicar pensamento sem cair no exoterismo nem se render à mediocridade – eis o desafio do artista. Eu não tenho respostas – faço apostas. E perco, quase sempre perco, perco muito e perco feio,. Mas nem por isso abandono o tabuleiro. Minhas apostas: a multiplicidade dos cavalos, e não apenas dos cavalos, mas também de outras feras e lances de dados. Fecundo minha música com poesia, e minha poesia com música. Exponho minha cara, meu corpo e minha voz. Arreganho minha mente, rasgo meu coração. Artesão de muitas técnicas, caçador de borboletas e vagalumes. Eu transito entre as fronteiras – nunca conquisto um território, mas não me deixo escravizar. A arte vagabundeia na […]

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ORAÇÃO DO APOCALYPSE

Poema: Renato Meneses / Painel, música, voz e vídeo: Isaac) Dai atenção ao apocalipse/dai atenção ao apocalipse. Dai atenção ao apocalipse/dai atenção ao apocalipse. Das profundezas do inferno O porco chauvinista está no planalto Ele vem bufando com fogo nas narinas Atentai ao apocalipse/ atentai ao apocalipse São pra mais de trezentas mil mortes De covas rasas comprovadas Cemitério de almas penadas Ele não vale o que a gata enterra Ó satanás te apiadas de nós. Apocalipse now/ apocalipse now Vamos arrancar os ovos do canalha Capar o porco com faca afiadíssima Dizer basta! Dizer, vai pra puta que o pariu Deixar os bagos balançando na cruz dos teístas Ó satanás, leva pra ti esse vestíbulo do inferno. Anunciando mortes, […]

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O fluxo da letra

Músico de competência duvidosa e cronista nonsense de Facebook, eu também sou poeta de folhas soltas, versos avulsos e imagens repetidas. De todas as 9.432 habilidades inúteis e não muito bem desenvolvidas que tenho, a versartesania é aquela em que sou mais imberbe. Apesar disso – ou talvez justamente por – faço do meu verbo um espinho na carne do mundo. Sou um menestrel da Provença que errou o século de estreia – escrevo-canto/canto-escrevo para enaltecer mulheres, corromper a juventude e desafiar heráldicas. Não sou guloso, beberrão ou mentiroso, mas tenho um fraco pela luxúria e pela preguiça e aprendi a converter a ira em ácido. Nascida sob uma estrela terrestre, um sol e uma lua de fogo, minha fala […]

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A inocente crueldade do sol

Sempre fui daqueles que escrevem com fogo, ignorando o risco da queimadura. Não considero palavras morais nem imorais, sagradas ou profanas, corretas ou erradas – palavras são palavras, ou seja, puras arbitrariedades. Meu papel é montá-las – no sentido de juntar peças, mas também no sentido de cavalgar (com todas as conotações sexuais que essa imagem suscita. Espremer palavras; exprimir qualquer coisa de inevitável que exista entre as superfícies interior e exterior da minha pele. Sufocar palavras, emprenhar palavras, destruir palavras e inventar palavras – e com elas trucidar o mundo tal como ele é para fazer nascer o absurdo: “será arte”? Há mais de dez anos, quando fiz a minha primeira experiência editorial, me perguntei como poderia definir uma […]

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Arte é trabalho

Arte é trabalho – não é trabalho a determinação de um ser humano a inventar alegrias para os outros? Não é trabalho o trabalho de decodificar os sonhos e decompor o real? Não é trabalho o cuidado de traduzir o inefável, de acender estrelas, de fazer a toalete de deus?

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Boneca de Buriti

Ninfa do brejo dourado,Boneca de buriti;Amor, utopia, pecado– beleza de um mundo por vir. Dá-nos teu peito e teu canto,Profana donzela. Anjo rebelde vestidoCom as cores do arco do céu,Por sol e poeira polido,Montado em fogoso corcel Dá-nos teu peito e teu canto,Selvagem gazela. Corpo que é terra molhada,Carta de navegação,Pedra de sangue entalhada– território em mutação. Dá-nos teu peito e teu canto,doce caravela Gotas de orvalho que escorrem,Contas azuis de cristal;Em tuas coxas se vive e se morre,Ninféia do Bem e do Mal. Dá-nos teu peito e teu canto,líquida estrela. Alma que escorre, enxurrada,tempestade de verão,– foice, martelo e espada– poema, gemido e oração. Dá-nos teu peito e teu canto,Flor das Tresidelas. Dá-nos o leite da língua,o olhar do […]

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Arte X Cultura – palavra-cilada e a máquina de guerra

Então, a arte é uma contracultura – essa sensibilidade estética a que se refere Guattari – é o que entendo ser a arte. Máquina de guerra, a arte rompe o pacto da normalidade, o pacto da mediocridade: ela viola os acordos territoriais das identidades fixas e eclode como força do caos em meio ao cosmo. Transgressão que se recusa a tornar-se lei –  Precisamos reavaliar periodicamente a utilidade das palavras. Nesse texto eu gostaria de fazer anotações mais ou menos genéricas sobre a palavra cultura, a partir de alguns fragmentos de Guattari. No final, espero ter esclarecido por que penso que a arte deve atuar contra a cultura e não como parte dela. Um conceito reacionário Em 1982, Felix Guattari […]

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