Um escritor despedaçado

Um escritor despedaçado

Sou um escritor aos pedaços… Minha escrita é um recorte do meu cérebro, e o meu cérebro não se parece com um laboratório, parece-se com um almoxarifado. Aqui não há engenharia, só bricolagem. De incompletudes, inquietações, inconformismos e, acima de tudo, incertezas, faz-se o meu pensamento vagabundo – eu domino a arte improdutiva de produzir a improdutibilidade. Sou um escritor despedaçado…

…mas tenho cá pra mim que ser escritor despedaçado é melhor que ser escritor inteiro… No mínimo, é melhor que ser escritor nenhum…

Ser aos pedaços é como ser poeira, é ser nuvem – de poeira se compõem as rochas, da volatilidade das nuvens as terríveis tempestades. Porque o que é aos pedaços é de fora do tempo – e mesmo quando o tempo o corrói, ele morre para fora do tempo, Pedaços nunca são simultâneos, morre um, um outro escapa.

Ser aos pedaços é ser nenhum, mas é ser muitos – de alguma forma, é ser todos. Eu tenho tantos nomes que esqueço de me acordar de manhã, esqueço as chaves de casa no bar, esqueço os versos das minhas próprias canções. Eu queria ter todos os nomes do mundo – em vez disso, tenho uma maldição: não tenho nome algum naquelas trevas ancestrais.

Mas o que importa é que aos pedaços escrevo – e escrevo, e rabisco, e rascunho, e publico, e experimento, e ouso, e erro, e rasgo, e cuspo – e bebo. Bebo um poema, bebo um acorde com cheiro de mulher. Escrevo palavrões, penso imagens sagradas, me entrego a inúteis críticas sociais.

Faço história, penso história – tudo que no mundo existe só existe quando se conta sua história. Cada história que conto é a história de um mundo – cada linha do meu ensaio é uma cutícula viva arrancada de debaixo da minha unha. E assim, de verdade, arrancando meus pequenos pedaços, eu faço como Pepeu & Moreira, vou passando no gerúndio, mostrando o que sou, sendo como posso, jogando meu corpo, deixando e recebendo…

Escritor aos pedaços, mas ainda assim um escritor – um artista, um selvagem…

Meu coração tem fogo – meu coração tem fogo no plural. Tem fogo-amor e fogo-raiva ,fogo-medo e fogo-tesão – meu coração tem fogo-fome, meu amor imaculado de caliente corazon. Porque fogo é vida, e sangue é vida, portanto fogo é sangue – e o fogo que queima nas minhas veias é o fogo que incinera a minha língua – língua de falar, língua de lamber, língua de percorrer paisagens de som e pele, língua portuguesa, híbrida de experimentos de fuga e reinvenção, linguagem de carne pra se chupar e morder, linguagem de sangue… língua de fogo.

A língua é só um pedaço, o fogo é um segmento – não há metonímias na natureza do escritor.

Livros que publiquei disponíveis na Internet

Ensaios Assimétricos é uma coletânea de textos do meu antigo blog. São ensaios de circunstância alinhavados pelo tema da loucura – mesmo que tocado apenas transversalmente, enquanto eu elucubrava sobre qualquer outra coisa. Essa coletânea foi motivada exclusivamente pela necessidade de uma ex-aluna, uma amiga, que precisava citar um texto meu em seu trabalho de conclusão de curso.

Cidade de Cristal é a minha dissertação de Mestrado em História do Brasil, pela Universidade Federal do Piauí, sob orientação do Dr. Edwar de Alencar Castelo Branco. Um trabalho em que analiso um discurso que narra a cidade de Caxias como “terra dos poetas” a partir de sua invenção, e identifico nele uma estratégia de evasão do tempo. Há também uma versão impressa do livro.,

Cartografias Invisíveis é uma obra monumental de referência que organizei, juntamente com os escritores Renato Meneses e Jotônio Viana. Um projeto da Academia Caxiense de Letras, financiado pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Maranhão que reuniu mais de 20 autores e percorre amplos territórios do saber.

Insolações – escritos à temperatura ambiente

Todos esses projetos carregam algum grau de nomadismo. Mas nenhum se compara ao nomadismo de um blog. Provavelmente, nos dias de hoje, o único suporte de escrita mais vulgar do que um blog deve ser o Twitter – o texto de blog é um texto menor, é um texto vadio, irresponsável, no máximo, pretensioso.

Aprendi a gostar de blogs quando o Blogger ainda era o rei, e fiz um largo uso da ferramenta ao longo dos anos. Romântico, aproximava o conceito aleatório e sem critério dos blogs aos cordéis de folhetos vagabundos do século dezoito. Criei revista eletrônica, formei times de escritores, formei uma cena de crítica cultural, fiz inimizades, magoei pessoas boas com a minha verve espinhosa e na época ainda mais estabanada.

Obviamente, me feri também – porque só se pode amar aquilo que se escreve com sangue. E, assim, experienciei a escrita como um jovem que se deita na cama de uma mulher madura e aprende com ela segredos e artimanhas de cortesã.

Meu projeto atual (Insolações: escritos à temperatura ambiente) recupera de maneira afetiva o primeiro e um dos mais ousados projetos editoriais que desenvolvi: a Causthica Revista Cultural (leia aqui um dos textos que escrevi naquela época).

O nome da revista era uma referência ao estilo corrosivo da crítica que pretendia imprimir, sim – mas era, sobretudo, uma celebração do calor abrasivo de nossa cidade: sol causticante que faz os nossos juízos ferverem, que exige de nós uma escrita ou em chamas ou de tempestade.]

Insolações recupera aquele meu sentimento, aquele meu programa ao mesmo tempo intelectual e estético – é o encontro de alguns pequenos dos meus pedaços.

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